Entre lobos e vampiros

por Nazarethe Fonseca

A vampira corria pelas ruas, ocultando-se como podia. Atrás dela, uma dupla de lobisomens avançava feroz. Havia deixado a casa de Corintos há duas horas e estava numa aldeia fora de Paris, Montmartre. A princípio, acreditou que fossem Pacificadores, afinal Corintos fora exilado, de modo que era proibido procurar seus conselhos. Mas Clio estava precisando de suas opiniões.

Temendo por sua vida, ela tomou a Rue Laffitte, e visualizou a colina escura no fim da rua. Ali teria chance de fuga. Há séculos, a colina foi lugar de peregrinações e, desde 1133, passara à jurisdição dos beneditinos. As construções dos jesuítas lhe serviriam de abrigo. Terra sagrada, lá eles não a tocariam. Ela corria, segurando a barra do vestido de seda azul.

Clio jamais aprendeu a lutar com uma espada – feria suas mãos, era cansativo e sempre havia alguém para salvá-la. Contava somente com seus poderes mentais e o assovio, sua força e agilidade. Algo que ela achava suficiente para viver na imortalidade, afinal conseguia tudo aquilo que queria dos mortais e imortais, mas com os lobisomens era diferente.

Onde estaria a maldita Ouroboros quando precisava dela? Assim pensando, caminhou pela parede de um velho prédio. Quando alcançou o topo do monte, correu pelos degraus de pedra e pôde ouvir seus passos, ágeis. Uma das criaturas parou e se transformou. Ela sentiu seu cheiro e teve muito medo. A capela rústica apareceu e Clio entrou, a porta não estava trancada. Fechou-a atrás de si e se escondeu o melhor que pôde por detrás do altar simples. Ficou em completo silêncio, captando o som da noite e o odor dos lobisomens que a perseguiam. Tentava entender por que eles não recuaram na subida do monte. Aquele era um terreno sagrado ou não? Verificou o piso e encontrou as tábuas, poderia se enterrar no cemitério da capela, mas como fazê-lo sem deixar rastros? Os dois cavariam e a exporiam ao sol. Confusa, olhou o vestido e o viu arruinado. Clio estava furiosa e com muito medo, não havia nada que pudesse usar para se defender. Sem escolha, esperou por quase uma hora, era tudo que tinha antes de o amanhecer tocá-la. Ficou na escuridão quieta, sabendo que seu tempo e sua segurança se esgotavam. Em mais uma hora, aproximadamente, os padres despertariam. Assim, precisava sair e rápido da igreja.

Nas sombras, ela sondou as redondezas. Ainda podia sentir o cheiro deles no ar, mas o odor provavelmente provinha de seu suor e suas pegadas. Esgueirou-se enquanto usava seus poderes, tentando ficar invisível. Estava próxima ao cemitério, atrás da capela, quando foi derrubada antes que pudesse entrar. Empurrou o primeiro oponente, jogando-o longe, e exibiu seus caninos, já usando o toque no segundo. Clio teve a iniciativa de assobiar, mas ele a lançou distante. Alquebrada, no chão, a vampira tentou se colocar de pé. O segundo avançou, e suas garras rasgaram-lhe a seda do vestido e a pele imortal. O sangue apareceu, seguido do grito de Clio. Eles a feriram! Estava infectada, morreria em pouco tempo.

A vampira recuou no chão e os dois seres se moveram em sua direção. Não havia mais nada de humano, só a fera: ambos estavam completamente transformados em lobisomens. Garras à mostra, o corpo coberto por pelos. A estrutura curvada, a face de lobo, a mandíbula alongada, os olhos atentos à presa. Eles babavam e iam terminar o serviço. Foi nesse momento que ela viu o brilho de uma espada cortando o ar e levando o braço de um dos lobisomens, que berrou de dor. Ele se voltou na direção de seu agressor e adiantou-se, sem medo, para ser cortado ao meio.

Quando o segundo avançou, o vampiro já estava pronto. O lobisomem se lançou sobre o antagonista, que saltou no ar para cravar a espada no corpo do adversário. O lobisomem, que arquejava e sangrava pela boca, parou e tentou retirar a lâmina cravada em sua clavícula. O vampiro o viu cair e se aproximou, puxando a espada e separando-lhe a cabeça do corpo.

Na escuridão, Clio viu o vampiro se aproximar, enquanto ofegava sem ar e sem conseguir se mover. Ele tocou seu ombro e examinou-lhe o resto do corpo, buscando mais cortes. O talho na região escapular não era muito grande, mas a mataria em questão de horas se ela não bebesse a poção dos Caçadores. O vampiro notou que ela tentava falar.

— Fique tranquila, vou ajudá-la.

— Leve-me para Ariel...

Clio ainda teve forças para falar, sentindo-se suspensa no ar pelos braços do vampiro. Ele caminhou em direção à capela, empurrou a porta e entrou.

Seguiu pelo corredor e, junto ao altar, depositou a vampira no chão. Precisava agir depressa ou ela morreria. Ainda estava consciente, mas só conseguia tremer e balbuciar palavras desconexas.

O vampiro fitou os objetos de prata sobre o altar e os pegou sem medo. Viu um pequeno pratinho onde as hóstias eram colocadas, ele serviria bem. Foi até a pia batismal e recolheu água benta no cálice de ouro. Levou-o até a vampira e a fez beber à força. Isso manteria seu organismo reagindo, afinal ingeria água, e não sangue. Lavou o ombro e viu o tamanho do corte. Pegou o pratinho e o rasgou ao meio como se fosse feito de papel. Depois, olhou a ferida e pesou as dimensões entre o talho e o pedaço de prata. Rasgou-o mais uma vez e cravou um fragmento na carne da vampira, que gemeu de dor, enquanto o sangue envenenado corria livremente da ferida – ele estava negro e viscoso. Despedaçou uma das tolhas do altar e fez uma faixa com a qual enrolou o ombro da vampira, imobilizando seu braço junto ao peito. Com o resto da toalha, envolveu-a e deixou a capela. Havia pouco tempo agora, pois o dia estava prestes a nascer.

Caminhou até o cemitério e olhou as datas nas lápides. Escolheu uma das covas mais antigas e deitou a vampira no chão. Arrancou-lhe o vestido e a deixou nua. Ela precisava manter seu corpo em contato com a terra para se recuperar. Após colocá-la no plano, ouviu-a gemer baixinho; em seguida, abraçou-a e a levou com ele para baixo do solo. Pouco depois, os raios do sol iluminaram a terra fria e protetora.

— Obrigada.

Foi a primeira coisa que Jan Kmam ouviu dos lábios da vampira, que permanecia muito fraca em seus braços. Clio despertou com menos dor, mas não conseguia sentir o membro superior e o ombro. Não tinha forças para andar ou ficar de pé.

— Não fale, poupe suas energias. Eu a levarei até o rei Ariel Simon.

Clio estava enrolada na toalha do altar em seus braços. Ele caminhava dentro da noite, ocultando-se habilmente. Já haviam saído de Montmartre quando notou quando ela fechou os olhos e recostou a cabeça em seu peito, colocando a mão sobre seu ombro forte. Dominada por essa sensação de segurança, a vampira apagou. Jan viu a mão dela escorregar por seu ombro e os lábios ficarem roxos. Morria! Correu o mais depressa que pôde e, em cinco minutos, alcançou o Château. Assim que entrou, um Pacificador a recolheu de seus braços e a levou consigo. Meia hora depois, Jan Kmam foi recebido pelo rei na biblioteca.

Nos últimos dez anos em que assumira o cargo de favorito do rei, Jan Kmam vinha mantendo com o soberano um contato mais estreito, participando de sua vida. Com pouco mais de cem anos, considerava-se um aprendiz diante dos demais vampiros.

Sozinho na sala esperando pelo rei, o favorito foi para a janela e fitou o jardim bem cuidado. As lindas roseiras que Ariel mantinha na propriedade mais pareciam um muro, a maioria branca. Jan deixou o olhar azul cair sobre as cores que somente seus olhos de vampiro conseguiam ver e, mesmo de tão longe, podia sentir sua fragrância doce e suave. Os cabelos loiros estavam presos por uma fita negra. Havia mudado a roupa suja de terra e sangue. Envergava, agora, calças negras a gosto da época e botas de cano longo. A camisa branca estava oculta por uma túnica negra com fendas laterais. Quando o rei entrou, ele se curvou ligeiramente, mantendo-se de pé.

— Você mostrou mais uma vez ser digno do título e de sua herança de sangue. Agora, sente-se, por favor. Sabe que é o único que pode fazê-lo em minha presença. Além do mais, estamos sós — Ariel disse, mostrando-lhe a cadeira para que se acomodasse.

Um criado entrou após duas batidas na porta e os serviu com um cálice de sangue. Ariel Simon tinha no olhar verde uma doçura que nem mesmo o toque frio da imortalidade conseguiu tirar. Ele fora transformado em vampiro no vigor de sua juventude. O cabelo ruivo estava preso para trás e contido por um broche de ouro. Na mão pálida, o anel de rubi, símbolo de sua realeza, cintilava. Vestia-se de modo informal, calças, camisa e um casaco curto, botas longas e engraxadas.

— Como a vampira está? — Jan Kmam perguntou após um gole curto no sangue do cálice.

— Viva e fraca, mas vai sobreviver. Sua rapidez de raciocínio e a prata a salvaram. Os Zeladores a enterraram após ministrarem a poção dos Caçadores.

— Sim, isso vai lhe poupar dores, e a cicatriz sumirá bem depressa.

— Como posso lhe agradecer?

— Eu teria feito de qualquer modo, eram dois contra um. Ela não teria chances mesmo com uma espada nas mãos... A verdade é que ela não sabe lutar — Jan resumiu, tentando não ofender a escolhida de seu rei.

— Sim, Clio é obtusa nas artes da defesa. Jamais quis aprender, eu mesmo tentei ensiná-la, mas é quase impossível lidar com seu gênio. Clio, como o nome sugere, é uma musa, e por vezes é mimada e voluntariosa. Hoje, ela sofre as consequências. Não se melindre em falar e não se engane: ela não é mais minha amante, somos apenas bons amigos.

— Compreendo. Mas ela não deseja aprender? — Jan estava confuso.

— Até hoje não demonstrou nenhum interesse — Ariel disse risonho, vendo a preocupação de seu favorito.

— Como seu mestre pôde negligenciá-la desse modo? — Jan se perguntava indignado.

— Ela é órfã. Jamais descobriu quem a transformou.

A revelação pegou o favorito do rei de surpresa. Como era possível? Ouvira falar de alguns casos, mas nunca havia estado diante de um. Era um crime imperdoável gerar um vampiro e deixá-lo à própria sorte.

— Órfã? — Jan Kmam indagou pensativo.

— Sim. Hoje, salvou uma das pérolas de minha coroa. Há 300 anos, Romano a trouxe ao Conselho, ele a adotou e, depois, passou sua guarda para os Poderes. O Livro a aceitou mesmo com seus poucos poderes — disse, lembrando-se do fraco de Romano por órfãos. O próprio Ariel fora adotado por ele há mais séculos do que podia lembrar. — Durante dez anos, ela foi observada e hoje circula livremente.

— Entendo agora por que não aprendeu a lutar. Ninguém a educou — comentou Jan sorrindo.

A vampira vivia livremente e fazia somente o que desejava. Sem mestre, correu muitos perigos, mas determinou o que aprenderia ou não. Era admirável que houvesse passado pelo Conselho e sido inscrita no Livro.

— Clio é uma vampira muito preciosa, ela vem de uma época rica e sempre trouxe alegria ao meu coração. Ela tem habilidades, sabe usar muito bem seus poderes; no entanto, com uma espada nas mãos torna-se indefesa. Mas o que achou dela? — o rei perguntou, observando o interesse do vampiro em Clio.

— Uma vampira bela e frágil — Jan comentou, sorrindo suavemente. Afinal, a achara lindíssima.

— Clio é companhia que não se deve recusar. Quando ela se recuperar, vou apresentá-los como se deve, e espero que se tornem bons amigos — Ariel comentou animado.

— Matei os dois lobisomens. Enfrentarei alguma acusação?

— Nenhuma, até porque eles atacaram primeiro. Como pode notar, Clio tem inimigos e admiradores na mesma proporção. Mas ser perseguida por lobisomens é algo novo. Terei de conversar com ela sobre isso em breve.

— Sim, afinal lobisomens não atacam sem motivo.

 

Três meses depois...

 

A casa estava às escuras, os criados haviam se recolhido. Jan Kmam encontrava-se acompanhado e não queria ser incomodado. O fogo permanecia aceso e, no leito, ele e Clio trocavam carícias. Ela havia chegado uma hora depois do anoitecer, trazendo consigo duas garrafas com sangue e uma pequena maleta. Pelo visto, pretendia passar algumas noites em sua companhia, algo que lhe agradava bastante. Após o incidente com os lobisomens, tornaram-se amantes.

Otávio estava em júbilo; afinal, tinha por Clio certa adoração e deixou claro que eles eram perfeitos e que deveriam se unir para desfrutar da imortalidade juntos. Ambos tinham interesses em comum e pareciam se completar. Ela era culta e delicada, silenciosa e sedutora. Uma vampira com os olhos cor de mel, cabelos castanhos, levemente cacheados. Sorriso também delicado, lábios carnudos.

Sob as mãos de Jan Kmam, a vampira sussurrava e gemia, entregando-se sem reservas aos seus beijos mordidos. Ele era diferente da maioria dos vampiros, que se saciavam com a mordida, o sangue sorvido. O favorito do rei sempre queria um pouco mais. Apreciava, antes de qualquer coisa, despi-la, tocar seu corpo perfeito e imortal. Sua beleza o seduzira. Quando a fome de prazer e sangue foi saciada, eles ficaram no leito entre os lençóis, aproveitando a companhia um do outro, enquanto bebericavam cálices de sangue.

— O rei nos convidou para uma pequena reunião — a vampira falou, olhando Kmam recostado nos travesseiros, já vestido em seu camisolão.

Achava-o cada vez mais atraente, e tudo que queria era ficar com ele. Clio havia encontrado o vampiro que sempre desejara, restando a ela agora fazer o convite.

— Então iremos. Mas só depois de sua aula — Jan a lembrou, observando seu aborrecimento contido.

— Você nunca desiste?

— Jamais. Além disso, você está indo muito bem! Já conseguiu até tirar sangue do professor — ele a lembrou, risonho do incidente.

— Sim, eu sempre consigo.

Clio afirmou brincalhona, saindo do leito para servir a ambos com mais sangue. Dessa vez, ela pegou a segunda garrafa, o sangue parecia levemente mais grosso. Encheu os dois cálices e levou um deles até Jan Kmam, que o aceitou sem reservas.

— Continuarei com as aulas, mas só amanhã. Hoje, quero desfrutar de algo especial junto com você — murmurou, olhando-o sensualmente, enquanto sorvia um gole longo de sangue.

Jan Kmam recebeu o cálice e sorriu feliz por Clio aceitar continuar. Daquilo dependeria sua segurança. Viu-a esperar ansiosa que ele bebesse também. Foi nesse momento que o favorito do rei conduziu a pequena taça aos lábios, porém o odor do sangue o incomodou. Ele afastou o cálice de si e saiu do leito. Foi até o fogo e jogou o líquido no fogo. A fumaça tinha o odor indisfarçável de sangue de lobisomem.

— O que pretendia, Clio? — perguntou, já vestindo seu roupão.

— Você já tem cem anos. Deve saber o que desejo — a vampira murmurou, sorvendo o resto do sangue.

E ela começou a mudar suas reações. Algo que desagradou profundamente Jan Kmam. Saiu do leito e passou a rodeá-lo, sinuosa como uma serpente.

— Devo crer que não venho conseguindo satisfazer você, Clio? — Jan perguntou alerta à vampira.

Ela não estava mais em si, pois o sangue do lobisomem alterara seus sentidos. Poderia esperar tudo dela agora.

— Sim, muito. Mas quero um pouco mais, descobri que quero ficar eternamente em sua companhia, Jan Kmam.

O vampiro afastou suas mãos do nó no roupão e a puxou para que ficasse diante de si. Ela estava excitada e tudo que desejava era possuir e ser possuída.

— Se está tão convencida, por que quis me drogar, me alienar com sangue de lobisomem? — Jan cobrou irritado.

— Quero ser sua por completo...

— Se não a satisfaço com minha natureza, deve procurar outro vampiro. — ele afirmou, contendo-a longe de si.

Jan Kmam estava magoado e ofendido. O sangue de lobisomem no organismo de um vampiro dava a ele a capacidade de possuir uma fêmea como se ainda fosse mortal. Entre um vampiro e um lobisomem, isso não parecia estranho, pois ambos precisavam satisfazer-se, mas, entre dois vampiros, a questão se tornava mais complexa. O sangue do lobisomem viciava e podia, aos poucos, torná-los mais agressivos, fazendo-os perder o controle quando a fome os tocasse. Era como beber absinto ou consumir ópio. Um recurso visto como uma droga perigosa no meio vampírico. Não era proibido, mas todos conheciam seus efeitos. Não desceria tão baixo apenas para satisfazê-la.

— É um vampiro magnífico, o sangue não nos causará nenhum mal. Apenas deixe-se levar... — ela falava sussurrante junto aos seus lábios.

— Acho que deveria procurar o rei. Ele pode lhe dar tal prazer sem que necessite usar tal artifício — o vampiro disse frio, tentando feri-la.

Clio o esbofeteou e exibiu seus caninos para Kmam. Era a droga norteando-a e mudando-a. A vampira estava mergulhada num vício perigoso. Só naquele momento pôde compreender por que ela fora atacada.

— Há quanto tempo faz uso disso?

— Que diferença faz?

— Quanto tempo, Clio? — Jan ordenou, segurando-a com força.

Clio reagiu e tentou empurrá-lo, mas foi contida. Jan Kmam a deteve nos seus braços e ela se debateu, mas, risonha, revelou a verdade.

— Há mais de cem anos, meu menino. Você é tão doce, apenas me possua. O que teme? Perder a razão? Acredite-me, não a perderá. Haverá lucidez e prazer, poderemos nos possuir como se fôssemos mortais por quanto tempo quisermos...

— Chega, Clio! Compreendo agora por que foi perseguida e atacada por aqueles dois lobisomens. O que eles queriam? Dinheiro?

— Sim, dinheiro por seu sangue imundo! Eles o vendem para qualquer um! Como não paguei a mais, eles tentaram me matar. Bastardos! — disse ela, como se fosse normal negociar com os lobisomens.

Ela estava fora de si, ria e o beijava, buscando uma resposta para seu desejo. O coração batia acelerado, todo o seu corpo clamava pelo dele. Jan a tomou nos braços e a levou até a cama. Ela o envolvia e tentava enlaçá-lo com suas pernas e seus braços. E gritou quando Jan a mordeu para, em seguida, sugar seu sangue com força, quase a exaurindo. Quando a deixou sobre a cama, ela sequer se movia.

Dos seus lábios, escorria um filete de sangue e a mente estava tornando-se confusa. Andou trôpego e alcançou a lareira, onde vomitou todo o sangue que sorveu. O calor por um triz não o destruiu. Quando finalmente se ergueu do chão, o vampiro sentiu no corpo a excitação diminuir.

Uma hora depois, Ariel Simon chegou com os Pacificadores. Jan Kmam já estava vestido e pronto para recebê-lo. Eles conversaram durante algum tempo sobre a situação. E, por fim, o rei conseguiu compreender o motivo do ataque sofrido por Clio. Ele não estava surpreso, conhecia muitos vampiros que estavam mantendo o mesmo hábito. Os Pacificadores, inclusive, já haviam contido alguns deles.

— Fez bem em drená-la, é o único modo de limpar seu organismo. Os Zeladores saberão como cuidar dela. Não vai ser fácil, mas acredito que ela sobreviva.

— Sim, Clio é forte e seu sangue parece vir de um vampiro bastante poderoso, afinal não manifestou nenhum sinal do vício.

— Deveríamos ter percebido algo — disse Ariel cansado e pensativo.

— Sim, deveríamos.

Os Pacificadores entraram no quarto e a acorrentaram. Um deles a tomou nos braços e saiu, levando-a consigo.

— O que acontecerá a ela?

— Será punida segundo as leis do Livro. Talvez um ano de reclusão, mas precisará ser observada bem de perto. Espero que seu coração se recupere, Jan Kmam — comentou o rei, tocando o ombro de seu favorito ao perceber a tristeza em seu olhar. Parecia ter desenvolvido um grande carinho pela vampira.

— Estranho dizer isso, majestade. Afinal, meu coração está morto há um século.

Jan Kmam os viu partir e saiu para o jardim. Seus passos o levaram para sua estufa. Lá, ele observou as rosas e tocou algumas das flores com extremo carinho. Por fim, colheu uma delas e, sentado em sua poltrona, observou-a por incontáveis minutos. Ele esperava por alguém especial, mas este ser ainda não havia aparecido. Todavia, ele tinha tempo e poderia esperar.

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Editora Aleph